129 | Rebanhão, a mais importante banda evangélica de todos os tempos

Sem desmerecer nenhuma outra banda evangélica, e falo isso com a seriedade necessária e com o devido respeito à história de muitas outras bandas, mas por conhecer o universo ‘gospel’ e ser amigo dos maiores nomes desse universo, independente de seus estilos, posso afirmar sem medo de errar que nenhuma outra banda evangélica (gospel) enfrentou tanta resistência e desbravou tantos caminhos e fronteiras como os ‘meninos’ do Rebanhão. Eles fazem parte da história da música brasileira.

Eles enfrentaram desafios, críticas, acusações, preconceitos e foram os verdadeiros  precursores da abertura de caminhos seculares que nenhuma outra banda evangélica ousara trilhar. Eles foram os precursores do rock, pop e da ‘descentralização’ da música evangélica brasileira, abrindo ‘espaços’ nos meios seculares para o que era antes um terreno ‘inabitável’ para os músicos cristãos.

Não vou me ‘prender’ em contar a história da Banda, pois existe um texto muito bom na Wikipédia (clique Aqui) onde você pode conhecer os ‘bastidores’ do Rebanhão.

Mas gostaria de salientar a importância que eles tiveram e ainda tem, para o universo gospel brasileiro. Tem que respeitar essa ‘turma’.

Eu conheci o Rebanhão em 1982 na vigília de Bento Ribeiro no Rio de Janeiro, onde eu era músico e membro da igreja local. Lá eu tive o enorme prazer de conhecer um cara muito ‘louco’ que usava uma calça jeans ‘descolada’ e surrada, uma blusa aberta no peito e falava com uma ‘gíria’ incomum que encantava à todos: o mestre Janires. A mensagem do Evangelho através do Janires tinha um sabor especial, era gostoso ouvir que Jesus era ‘mais doce do que o mel’ daquele ‘jeitão’ descolado.

Ali nascia não uma paixão, mas uma profunda admiração e respeito por esses ‘meninos’, em especial pelo Janires, Pedrinho e o Paulinho (para mim e na minha modesta opinião, um ‘monstro’ e o melhor baixista do universo gospel nacional. Ele faz as ‘digitações’ monstruosas, parecerem fáceis de fazer). Eu me tornei baixista tentando repetir no contra-baixo o que esse gênio fazia no dele.

Foi um amor genuíno que dura até os dias de hoje e atualmente ter a liberdade e o prazer de diariamente conversar com o Paulinho e o Fernando Augusto ‘O Tutuca’ é muito mais do que um privilégio. É uma honra conversar com os meus ‘ídolos’ da adolescência, apesar de eles já estarem na casa dos 50, mas continuam os mesmos ‘meninos’ do começo da carreira. Não mudaram nada: humildes, sensatos e genuinamente cristãos.

Para quem nunca ouviu falar do Rebanhão (os novos cristãos de hoje), e para você entender o que eles já enfrentaram, no início dos anos 90 houve um ‘levante’ em diversas igrejas tradicionais, em especial no Rio de Janeiro, incentivando e mandando quebrar todos os LPs dos ‘meninos’, pois diziam que o som do Rebanhão era diabólico, e pasmem vocês, diziam (mentirosamente) que até se ‘rodassem’ o LP ao contrário você poderia ouvir saudações ao diabo. Isso aconteceu numa ‘palestra’ em 1990 no Teatro América, na Tijuca, e eu quase ‘avancei’ no autor daquela palestra. Eu iria dar uns ‘tapas’ em ‘amor’ cristão nele. Mas me contive e deixei para lá a mentira e ‘bobagem’ que ele disse para 300 jovens naquela noite. A mentira caiu por terra. 

Os ‘críticos’ dos ‘meninos’ do Rebanhão não levavam em consideração e não repeitavam os milhares de jovens que eram alcançados pelas mensagens das músicas cheias de amor, temor e de contemporaneidade cristã que falavam de Deus e do seu amor de uma forma leve, ousada e impactante. Muitos foram ‘atingidos’ por esse amor e hoje muitos são missionários, pastores (inclusive eu), teólogos e líderes evangélicos influenciados pelas mensagens cristãs das músicas dos ‘dinossauros’ do Rock evangélico.

A morte traumática do Janires foi uma dor difícil de digerir. Eu recebi a notícia da morte dele em um evento que fui tocar em Madureira. Foi uma enorme choradeira de todos os músicos ali presentes. Até hoje ele faz um grande falta para todos que tiveram o prazer de conhecer aquele ‘maluco beleza’ de Cristo.

Eu estive presente em vários momentos marcantes do Rebanhão, com destaque para o inesquecível show ‘Novo dia’ em 1988, eles foram a primeira banda evangélica a tocarem no Canecão, um ‘templo’ sagrado da boa musica e da ‘nata’ da MPB brasileira dos anos 80 e 90. Só tocavam ali os ‘monstros’ mais respeitados pelo público e pela crítica: Milton Nascimento, Chico Buarque de Holanda, Toquinho, Tim Maia, Dorival, Elba, Flávio Venturini…

Esse antológico show teve em sua clássica formação o ponto alto da noite de muita música, unção e competência: Carlinhos Félix, Pedrinho Braconnot, Paulinho Marotta e Fernando Augusto o ‘Tutuca’ o mais carismático e atencioso integrante daquela formação clássica.

Quem abriu as portas para todas as demais bandas foram os ‘meninos’ do Rebanhão. E eles sempre levaram a sério o seu ministério, pois a Banda é um ministério, muito mais do que uma ‘banda’ de música evangélica.

Como esquecer da Concha Acústica da UERJ e o show memorável onde o Pedrinho interrompeu o show pois as meninas da plateia estavam dizendo ‘Pedrinho eu te amo’ e ele incomodado com a ‘tietagem’ disse que o amor e o centro das atenções deveria ser em Jesus. Um pastor do antigo grupo Atletas de Cristo, subiu ao palco e pediu que todos se colocassem de joelhos e entregassem as suas vidas à Jesus. Naquela noite mais de 100 jovens entregaram às suas vidas a Jesus. Esse é o Rebanhão que muitos desconhecem.

Eu frequentei o RB Stúdio que ficava no mesmo andar do apartamento do Pedrinho em Copacabana, no Rio de Janeiro, à convite do Inácio Braconnot e ali conheci de perto os mais bacanas músicos brasileiros. Meu sentimento de respeito ganhava contornos de admiração acima da média, à cada dia que passava. O Pastor Pedrinho Braconnot é um homem sério, que leva Deus a sério e um músico muito competente.

Confesso a você que eu não tinha muito contato com o Carlinhos e quando ele começou carreia solo com uma apresentação no Tabernáculo da Lagoa, eu fui cobrir o evento à pedido do Reverendo Caio Fábio, para a Vinde Produções. Nos teclados estavam o Emerson Pinheiro, hoje pastor e marido da Fernando Brum, mas na época ele era um adolescente em início de carreira. Emerson era meu vizinho em Vicente de Carvalho. Naquele show eu comecei a conhecer o Carlinhos. Passei a conhecer todos os ‘meninos’ que eram os meus ‘ídolos’.

A história do Rebanhão confunde-se com a própria história do Evangelho contemporâneo Brasileiro, pois ambos cresceram lado a lado. É difícil separar os crescimentos que são contemporâneos e a linha que os divide os dois ”movimentos’ é tênue ou inexistente.

Se hoje a música evangélica brasileira é mais respeitada e admirada em todo o país, com um conteúdo e qualidade, com músicos de renome, muito se deve aos ‘meninos’ do Rebanhão, que pagaram o preço para o Evangelho chegar ao ponto de excelência musical que está.

Eles estão de volta e gravaram o ‘Rebanhão 35 Anos’, em um reencontro memorável no Rio de Janeiro. O show virou um DVD que é uma obra de arte.

À lamentar a ausência do Tutuca, e nada contra o baterista da atual formação, o Bruninho que é muito competente no que faz, mais ficou esquisito terem deixado de fora o Fernando Augusto o ‘Tutuca” que fez parte da clássica formação que ficou conhecida no Brasil e no Exterior. Foi o único ponto negativo do ‘reencontro’. Durante os preparativos para a gravação do DVD, eu mandei vários e-mails para o Pedrinho exortando que convidassem o ‘Tutuca’ para este reencontro até por uma questão de honrar quem fez parte dessa história, mas nunca obtive qualquer resposta do Pedro. Fiquei triste, queria ver o Tutuca no meio da galera de novo, Aí sim seria a verdadeira volta do Rebanhão ‘original’, mas entreguei a decisão deles ao Senhor.

À ressaltar para encerrar, é que o show foi antológico, primoroso, competente e trouxe de volta a melhor banda evangélica Brasileira de todos os tempos: Rebanhão 35 anos.

Léo Vilhena

classica
Formação Clássica: Carlinhos, Paulinho, Pedrinho e Fernando Augusto ‘O Tutuca’

 

 

 

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