123 | O dia em que fiz um pastor passar vergonha

Eu já disse certa vez e eu vou repetir para que não haja dúvidas: ‘Quando eu erro ou estou errado, sou o primeiro a corrigir meus erros, pedir perdão à Deus e assumir minhas culpas. Mas quando estou errado’.

Quando eu não estou, nem a pau juvenal, eu assumo um erro que eu não tenha cometido e não assumo desculpas por erros que eu não causei. E sempre foi assim, mesmo com 21 anos de idade.

Eu era um seminarista novo, inexperiente, mas sedento para anunciar a glória de Deus e fui convidado para ir pregar em um retiro de jovens em Tangará da Serra, Mato Grosso, e por ser um retiro de jovens (era o Carnaval de 1992) e eu ter sido convidado para ministrar em um acampamento à beira de um lago maravilhoso, eu fui de bermuda, tênis e camiseta. Até aí nenhum problema, pois os demais líderes daquela igreja também estavam de bermudas. Eu fui convidado para pregar num Domingo as 10 horas da manhã em Mato Grosso que tinha um ‘sol para cada um’ de tão quente que estava.

O problema foi outro e eu não me aguentei e detonei o pastor daquela igreja que não me conhecia e quis chamar a minha atenção na frente de todo mundo.

Quem me convidou para pregar foi a líder da juventude daquela denominação (que por motivos óbvios eu não vou citar o nome daquela igreja) e me sentei lá no fundo do espaço reservado para o culto (deveriam haver uns 300 a 400 jovens) e eu me coloquei ‘no meio da turma’.

E deveriam haver naquela manhã uns 10 jovens de bonés, e eu era um deles. Aí começaram os problemas.

Tudo estava indo bem, até que o pastor da igreja começou a berrar que nem uma ‘louca’ e dizia que deveríamos tirar os bonés pois isso seria uma ‘afronta’ com Deus, e o pior, usou a bíblia para ‘embasar’ a ‘mensagem’ dele: ‘Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça’. 1 Coríntios 11:4.

Eu fiquei calado, não tirei o boné como os demais fizeram e me segurei até onde deu, até onde eu aguentei. O pastor sentindo-se ‘humilhado’ pois o ‘rebelde’ não tirou o boné, vociferou e berrou: ‘Jovem, arrependa-se enquanto há tempo e tire esse boné que desonra a Deus’.

Nesse instante eu era o ‘centro’ dos olhares de todo o retiro.

A líder que me convidou, correu para o pastor e disse: ‘Ele é o missionário que nós convidamos para vir pregar. Ele é do Rio de Janeiro’.

O pastor negão ficou mais branco igual a um floco de neve e sem palavras ficou mudo com se tivesse engolido a própria língua. Ele já tinha ouvido falar de mim.

Como ele falou de mim e chamou a minha atenção em público, não me constrangeu nem um pouco eu ‘responder’ também com o microfone na mão e em público. Eu me levantei calmamente, e sem tirar o boné, peguei o microfone e disse:

‘Filhinhos, errais por não conhecer as Escrituras. Cabeça velada é referente ao uso do Véu, no Original Grego coberta é velada, naquele tempo, em Corinto só uma prostituta rapava ou cortava seu cabelo curto. As mulheres decentes usavam um véu sobre a cabeça em público para mostrar que tinham marido e não estavam disponíveis. Mulheres sem véu na cabeça podiam ser consideradas imorais. A imoralidade sexual era um problema em Corinto e Paulo não queria que a forma de vestir das pessoas piorasse o problema. Por isso, dentro da igreja Paulo recomendava o uso do véu, nos tempos bíblicos não existia o Boné e por isso Paulo não podia mandar tirar da cabeça algo que sequer existia. Como eu não sou judia, não sou mulher e tão pouco eu sou uma Puta, vamos abrir a bíblia em …‘ e abri a minha bíblia…

E comecei a pregar sendo saudado por quase 400 jovens com aplausos e assobios. Quando terminei de pregar, fui procurar o pastor para termos uma ‘conversa’ e fiquei sabendo que antes mesmo de começar a mensagem, ele havia ido embora do retiro e deixou mulher e filhos para trás.

Não é bom proceder sem refletir (Provérbios 19:2) e errais por não conhecer as Escrituras (Mateus 22:29). Depois fui convidado mais de 10 vezes para pregar naquela igreja, que já tinha outro pastor.

Léo Vilhena
Escrevendo esse editorial com o Boné do Vasco na Cabeça

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